Matéria Especial: Homem na Agulha

Fonte: http://razoesparaacreditar.com/

 

Lendo assim, o título poderá induzir a uma imagem pouco agradável. Talvez um paciente, homem, deitado numa cama hospitalar e tratado à base de medicação intravenosa. Mas não é nada disso.

 

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Primeira aula aberta de crochê e tricô só para homens Centro Cultural São Paulo, créditos Karen Bazzeo.

 

Trata-se de um projeto desenvolvido por um artista plástico paulistano de 34 anos, Thiago Rezende, tendo como técnicas o crochê e o tricô. Técnicas que utilizam a agulha (pequena ou grande) para desenvolver um trabalho manual. As técnicas – tricô e crochê – já foram largamente utilizadas em intervenções urbanas, performances ou em site specific (obras criadas de acordo com o ambiente e com um espaço determinado), porém o seu autor (ou autora), na maioria das vezes, permanece anônimo, ou pouco exposto. (leia o box abaixo)

 

O diferencial, nesse caso, é que o artista, em uma de suas ações, convida os homens a fazerem crochê e tricô, formando um grupo de dez ou mais para executar a tarefa na hora. O resultado são objetos que não precisam ter um fim em si. Aqui uma observação: sem qualquer nota de preconceito, estamos acostumados a ver mulheres praticando essas técnicas e, em sua grande maioria, senhoras mais velhas, portanto a imagem de um homem, jovem, tricotando ou crochetando é inusitada.

 

Thiago afirma que a primeira intenção não foi questionar e discutir qualquer dicotomia entre tarefas femininas e masculinas, mas percebe que houve um avanço em seu trabalho em outras frentes. “Inicialmente apenas uma proposta formal, da técnica inserida em minha pesquisa poética de artes plásticas, como mais uma maneira de produção de objetos de arte. Com o tempo percebi que já era muito mais que isso, o trabalho passou a ser quase uma militância política, em defesa da liberdade de escolhas e contra o conservadorismo careta” – conta o artista.

 

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Para além da questão de gênero, há uma questão cultural. Normalmente o crochê e o tricô estão associados as nossas avós. “Sim, antes do preconceito de gênero vem a questão da idade. Crochê é coisa de avó. E isso é simplesmente cultural. Quando as pessoas me veem tecendo em público, acredito que esse estranhamento seja dobrado, por eu ser homem e jovem. Essa é a graça para mim, provocar choque e despertar questionamentos” – ressalta.

 

Formado em Artes Visuais pela Faculdade Paulista de Artes, em 2009, Thiago começou com o projeto depois de uma experiência no SESC Pompéia, em 2012. De lá para cá, vem colocando o projeto “Homem na agulha” em prática, desenvolvendo intervenções, ações coletivas e produzindo produtos, como os amigurumis – bichinhos em crochê,vem do japonês, ami significa crochê e nuigurumi boneco com enchimento. A ele, mais tarde, juntou-se outro artista, Luiz Cambuzano, que em conjunto oferecem cursos das técnicas empregadas em seus trabalhos. Juntos já levaram o projeto à diversas cidades como Jacareí, Sorocaba, Santo André, Bertioga, Campinas e Santiago (Chile). Esses e outros trabalhos podem ser encontrados na página do facebook.

 

Não há por parte do artista qualquer discriminação. Mulheres e homens podem participar da “roda de crochê”, mas, segundo ele, os homens ficam intimidados quando há no grupo uma mulher. São técnicas vinculadas a uma tarefa desenvolvida, mais frequentemente, por mulheres, mas que os homens também estão exercendo. E, além disso, o exercício permite benefícios para a saúde: diminui a ansiedade e alivia o estresse, prevenindo a depressão. Segundo o artista “ao tecer você entra num processo muito introspectivo, quase uma meditação. Os encontros são importantes para a troca de ideias e figurinhas, e essa socialização também é legal. A famosa expressão ‘tricotar’…”.

 

Na verdade, se pararmos um pouco para pensar, a técnica é muito similar a confecção de rede de pesca, que, ao contrário do tricô e crochê, é mais praticada pelos homens. E, além disso, o crochê e o tricô aproximam-se muito da costura que tradicionalmente, em sua origem, trata-se de uma tarefa masculina. E se formos ainda mais longe, tem-se registro na antiguidade, no Egito, de homens praticando essa tarefa, enquanto as mulheres produziam os fios com a roca. Portanto, não é uma questão de justificar, mas contextualizar.

 

O nosso vício no olhar e a cultura na qual estamos inseridos nos fazem esbarrar em regras excludentes, mas que estão caindo em desuso. Em um novo século como o que estamos vivendo, cheio de transformações, não cabe mais ficar dividindo as coisas em caixinhas. Qualquer preconceito é um desserviço à sociedade. Seja um homem, ou uma mulher, pode exercer qualquer tarefa mesmo que essa venha já culturalmente preestabelecida.

 

Em agosto do ano passado, o projeto tomou um novo impulso após o artista ter conhecido o psicólogo chileno Leonardo González. Essa nova parceria lhe rendeu uma viagem até Santiago, onde hoje está trabalhando e aprendendo com a cidade. O tricô e o crochê estão sendo usados para atender as pessoas no serviço de saúde mental assistidas por psicólogos. “Em 2016 quero estreitar a parceria com instituições de saúde mental no Chile e Brasil, além de desenvolver peças para figurinos de teatro, dança e moda” – conclui.

 

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